Porto Vermelho
A primeira coisa que se fazia notar eram seus olhos. Não por que quisesse, longe disso. Seus olhos se mostravam no meio de tantas outras. Seus olhos que a faziam ser a melhor, a mais cobiçada, a mais desejada, a mais bem paga. Não era o seu toque delicado, ou sua boca hábil. Eram seus olhos. E você notava isso no instante em que a via. Olhos grandes, ovais. Olhos que diziam tanto – tanto, que não seria possível entender tudo... O que era a desculpa para que cada um entendesse o que bem desejasse – e somente o que desejasse. Alguns os liam como promessas de uma salvação, outros como um porto, outros como um brinquedo, e alguns se confundiam tanto, que não viam mais nada.
Ela se orgulhava de ser o que era, e disso não se tinha duvidas, a partir do momento em que você deixasse que ela falasse. Tinha orgulho de ser um museu ambulante, um ícone de um cabaré, que era o ícone de uma cidade, em pleno século XXI.
Seus lábios quase não se viam, por culpa do leque rendado que ela mantinha aberto, com uma elegância imperial. Ela não gostava da sua boca. Não gostava, e não deixava que a vissem até que ela soubesse que a cicatriz que carregava não seria empecilho ao seu trabalho. Uma cicatriz tão grosseira, que nem a maquiagem escondia por completo. Fruto de um bêbado, fruto de seu tempo nas esquinas. Fruto de uma faca bem colocada entre seus lábios, e de um puxão que a levou até o meio de suas bochechas. O cabelo ruivo caia encaracolado até a altura do busto, lembrando labaredas bem conduzidas. Um espartilho preto, rendado, e mais apertado do que seria saudável lhe empinava os seios, os deixando ainda maiores do que por natureza já eram, ainda mais chamativos.
Um roupão de seda, cor de vinho, caia por seu corpo, deixando os contornos de seu corpo bem moldados e descobertos – ainda que cobertos, a vista dos possíveis fregueses. O roupão era munido de um decote preguiçoso, que corria até um pouco antes do umbigo, deixando seu espartilho bem a vista. A semi-transparencia do tecido – ainda que escuro, denunciava aos atentos a cinta-liga que usava por baixo, cobrindo as pernas cruzadas. Ela se sentava em uma poltrona aveludada, de um vermelho claro. Ela não se preocupava em levantar e achar um cliente, um freguês. Eles vinham até ela. Eles sempre vinham.
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A minha Ex-Professora de Literatura deu essa redação para a minha ex-turma. A redação de uma amiga me fez querer escrever esta..
Postado por:
Sarx
às
20h16
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