Podre Amor

Seus passos eram lentos, arrastados, hesitantes e tropegos, como que bebados. O olhar perdido demonstrava a confusão que deveras sentia, combinado a tipica dor que se sente diante de algo ruim que sua mente se recusa a processar. O escuro do depósito aparentemente abandonado lhe escondia as formas do corpo, enquanto a luz rara dos poucos carros que cruzavam a rua na qual o tal ficava lhe iluminavam apenas o suficiente para que algo se visse na altura de seu pescoço, algo brilhante, que aparentemente refletia a luz. Era visivel também que estava, pelo menos da cintura acima, nú. Os passos que, em contradição a lentidão e a aparentemente preguiça, se mostravam decididos, chutaram uma caixa de papelão fazia, enquanto ele fazia seu trajeto.

Um choro baixo e relutante, tipico de quem considera que impedir as lagrimas de cairem poderia lhe salvar, era ouvido da direção a qual o homem lentamente se dirigia. No meio das sombras, seria possivel ver caso se fosse o dono de uma visão privilegiada, uma menina encolhida, os braços abraçando as pernas em posição fetal, a maquiagem manchando as bochechas rosadas, e o olhar de terror fixo em quem se aproximava. Estava assustada, aterrorizada - impedida até mesmo de tentar fugir, de tão grande era o medo que sentia... Era paralisante.

Os passos dele não se preocupavam em seres silenciosos ou rapidos, ou se o faziam, falhavam miseravelmente, visto que cada passo das botas de bico de ferro fazia o som metalico ecoar por todo o local, enquanto amassava vidros quebrados, e chutava caixas, não pelo impeto de o fazer, mas como se, elas estando ali, não houvesse nada que pudesse ser feito, além de fingir que não as havia visto. Os lábios se descolaram em seu silêncio medonho, como se prestes a verbalizar algo pela primeira vez naquela noite fatidica... Mas não o fez. Nenhum som de fez ouvir, além de um suspiro leve, como que de tristeza ou desapontamento, enquanto ele se aproximava cada vez mais.

A garota agarrou, em seu desespero, um vidro vazio, o rotulo já colado, mas livre de tampa ou de conteudo. Os dedos o apertavam com força, as costas escoradas contra o canto da parede, o braço em riste como que hesitante em fazer o arremesso. Por que ele estava fazendo aquilo? Por que a estava perseguindo, por que aparentemente parecia tão débil, lento e perdido? Estaria ele doente? Estaria seu tão antigo amor acometido por algum mal, agindo fora de si, agindo de maneira não natural..? Seria realmente culpa dele?.. A resposta deixou de ser necessária, quando ela viu seu contorno chegando cada vez mais proximo, perigosamente perto demais. Arremessou o vidro vazio em direção a ele.

Sentiu o vidro bater em seu peito, sentiu o estilharçar, os cacos lhe entrando a carne.. Registrava a dor, mas não a sentia de fato, não era lhe era incomodo ou impecilho. Mas, ainda assim, parou. Parou, a mão espalmada passando pelo peito, limpando-o dos cacos que haviam se prendido a carne, enquanto cortava a si própria. Parou por surpresa, por decepção, não por dor ou incapacidade. Ela o havia tentado ferir. Ela o havia arremessado um vidro, ela o queria machucado, ela o queria inerte e incapaz..

- Por...Quê...


A voz grossa e rouca soava como se não fosse usada a séculos, as palavras saindo por seus lábios com uma falta de habilidade caracteristica a uma criança que começava agora a aprender a se expressar. O tom de pergunta era claro, assim como era facil perceber a tristeza, a decepção e a amargura por trás de sua voz.


A garota se encolheu ainda mais, o tom do choro se tornando ainda mais frenético quando o viu voltar a andar, um pouco mais rapido agora, ainda mais decidido. Não sabia se chorava por culpa, por ódio, por desespero ou por medo. Não sabia se a culpa que sentia por ter tentado ferir seu grande amor era maior que o medo do tal amor faria com ela agora. Tateou o chão desesperada, instintiva, atrás de outro objeto - algo mais pesado, mais certeiro - para atirar, e lhe impedir o avanço. Achou algo que não reconheceu, mas o peso, a textura metalica e o formato comprido lhe pareceram perfeitos para um arremesso. Ela jogou, desesperada, o vendo perto o suficiente para que esta fosse sua ultima chance.

Ele sentiu o metal lhe atingir o crânio enquanto vinha em sua direção, giratório, assassino e imoral. O impacto em sua tempora direita foi brutal, e ele observou tudo girar, observou-se cair rapidamente, girando em tons e velocidades que seu corpo certamente não seria capaz de fazer, e então, então ele sentiu o impacto do chão com sua cabeça. Piscou os olhos confusos duas vezes, vendo seu corpo decapitado ainda lá, de pé, parado, com os braços caidos a sua volta. O passar de um carro iluminou o corpo o suficiente para que ele pudesse ver a silver tape que prendia a cabeça antigamente decepada ao corpo...

Estava, agora, a menos de cinco metros de seu grande amor, a cabeça caida no chão na lateral, os cabelos lhe tampando os olhos perdidos e chorosos, ainda que impossibilitados de vertes lagrimas. Os lábios se descolaram mais uma vez, com mais dificuldade do que da ultima vez.

- Eu...v-vol... voltei...

Parou mais uma vez, como se as palavras lhe custassem demais, como se o esforço fosse quase sobre-humano. Abriu com força os olhos, sentindo o corpo desabar ao chão enquanto falava, sentindo o toque frio do chão alçapão em seu corpo porto. Fixou os olhos amarelados nos chorosos de sua amada, tão apavorada e encolhida... E, como num ultimo suspiro, numa ultima palavra dita em um ultimo folego, sua voz soou exatamente como ela lembrava ter soado no dia em que se conheceram, antes de sumir para sempre.

- Por você.

 

 



Postado por: Sarx às 17h10
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Sobre Cajú e Bolacha.

O ano 'tá acabando, mas ainda dá tempo de se despedir. Ainda dá tempo de se despedir, de abraçar bem forte, e de fazer valer a pena o pouco tempo que ainda resta até o começo 2009... Por que não importa, de verdade, quem você é, aonde você está, o que está fazendo, prestes a fazer, o que está acontecendo, ou prestes a acontencer. O que importa, é que uma das unicas, se não a unica regra absoluta que rege o universo, é a seguinte: Tudo muda. Todo dia, toda semana, todo mês. Principalmente, todo ano. Algumas coisas se perdem no caminho, algumas se quebram, outras se arrumam, e outras simplesmente aparecem dentro da sua mala um belo dia de manhã, sem que você não consiga se lembrar exatamente como diabos aquilo foi parar lá.

Então, tendo em mente essa verdade, essa maxima constante e irrefreavel, eu digo que o pouco tempo que resta tem que ser aproveitado. Não alucinadamente, como quem não sabe e não espera o amanhã, mas sim aproveitado como quem sabe que no dia seguinte, você pode não ter a chance de aproveitar da mesma maneira. Tem que ser aproveitado com aquele gosto gostoso e diferente que a ultima bolacha ou garfada sempre tem... Tem que ser aproveitado com esperança de renovação, de continuidade, mas com certeza de que ter certeza, é a maior estupidez. Todo final de ano tem um gosto leve de despedida. Não importa se é a despedida de um parente, de um amigo, de uma vida inteira, ou simplesmente do ano que passou. E o que torna cada fim de ano especial, e unico, é o truque de conseguir interpretar esse gosto estranho, não como algo ruim, mas sim como o amarrar da lingua criado pelo cajú: A consequencia pelo doce da fruta, que tanto vale a pena, que mal é percebido.


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Tudo de Blog: O Ano tá acabando, mas ainda tem tempo 'pra que?

Postado por: Sarx às 18h23
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Selos.



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