Queimando

 

"Você pode ser tão cruel", ela disse, os olhos castanhos repletos de um olhar perdido em algum lugar entre magoa e julgamento, enquanto esmagava um cigarro no cinzeiro, como se fosse a ele que afundava num mar de cinzas e brasas apagadas.

 "Claro", ele pensou, suspirando aborrecido sem nem dar-se conta de que o fazia. "Dos carrascos, o pior.". Não era a primeira vez que ela vinha com aquelas coisas, aquelas lamentações espontâneas, e ele podia apostar com qualquer um que não seria a ultima, mas isso certamente não lhe tirava o direito de se aborrecer, de se incomodar com aquele discurso que de tão repetitivo, começava a lhe parecer entediante - mais do que sempre fora, se isso fosse possível.

Ele levou os olhos falsamente imunes de volta para os dela, sério, como se esperasse o resto do discurso com uma impaciência acida... E o gesto durou apenas o tempo necessário para que percebesse que, se queria que o prólogo não se estendesse até a trama central, a melhor coisa seria fingir se concentrar na televisão.

"E você nem se importa", disse ela, o principio de raiva ardente abortando a gestação cautelosa de lágrimas. "Você sabe que eu estou chateada, e nem se importa.".

"Não mesmo", ele escutou as palavras saírem casualmente de seus lábios antes que pudesse fazer qualquer coisa, inconsciente de como isso confirmava o julgamento ao qual havia sido submetido segundos antes...  Notou graças a um olhar furtivo e despercebido que ela abaixava a cabeça, e se levantou, saindo dali na esperança de que estaria longe o suficiente para fingir que não percebia quando ela começasse a chorar. Cruzou alguns cômodos, indiferente à velocidade - ou falte de - da qual se enchiam seus passos, até passar pela pequena cozinha, de onde surrupiou o isqueiro do fogão, e dela para o quintal dos fundos, aonde acompanhado pelo silêncio incomodo da vizinhança ele meteu a mão no bolso da calça jeans, puxando de lá um único cigarro amarrotado. Encostou as costas na parede de azulejos claros, os olhos fechados só se abrindo depois de sentir, pela primeira vez em varias horas, o pulmão repleto de fumaça.

"Não era desse jeito", ele constatou em voz baixa com os olhos presos em uma nuvem escura que tampava o sol pálido da estação. Não se referia as lamentações sem motivo ou as respostas acidas, mas sim ao que vinha depois: Em algum momento do passado, ele poderia dizer com certa quantidade de certeza que sentia algo. Algum tipo de culpa, algum tipo de tristeza, algum tipo de vontade de voltar lá e pedir desculpas... Mas não agora. Agora ele era tomado por uma mistura de aborrecimento e satisfação, como se soubesse com certeza absoluta  que ela merecia aquilo - mas ele não sabia, e nem mesmo sabia por que achava saber... Só sabia que a sensação estava lá, e que algo lhe dizia que ela não iria embora tão cedo.  Deixou então as costas escorregarem pela parede fria, o obrigando a se sentar, apoiando o braço que carregava o cigarro no joelho direito, que estava dobrado. Encarou a brasa sem saber qual era sua expressão, os olhos concentrados no queimar lento do papel e do fumo... Aquilo sempre lhe fazia bem, aquele hábito de observar as coisas serem queimadas, e finalmente deu-se conta de que suas excursões a fogueiras em latas de lixo e explosões de caixas de fósforo com fluido de isqueiro haviam diminuído consideravelmente desde o momento em que o vicio do fumo havia entrado em seus dias... Talvez não fosse (apenas) a nicotina que o fazia se sentir melhor, e sim a presença tão necessária da brasa, do fogo, da corrosão.

"Estamos todos queimando, de um jeito ou de outro.", ele comentou sem saber ao certo qual era o sentido daquilo, como se falasse com alguma outra pessoa que não estava ali.

Tragou o ultimo centímetro do cigarro de uma vez, até sentir o filtro lhe queimar os lábios, e o jogou ao chão de cimento. Soltou a fumaça grossa pelo nariz, e fechou os olhos, apoiando a cabeça na parede atrás de si, em silêncio.

"Estamos todos queimando.", ele repetiria dali alguns minutos, dessa vez em tom de quem havia entendido. Sorriu um sorriso sem dentes, como eram todos os seus, e ainda de olhos fechados, adormeceu. 

 



Postado por: Sarx às 10h57
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Selos.



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