Cetim

Deveriam ser pelo menos quatro horas da manhã de um dia qualquer, pelo silêncio e escuro que tomava conta de todos os corredores do hospital, sendo quebrado apenas pelos passos ocasionais de plantonistas ou pelo suave apitar de uma ou outra maquina.

Uma noite bem calma, realmente.

O homem deitado em baixo das finas cobertas azuis do quarto 42 aparentava pouco mais de trinta anos, apesar dos vinte e três que realmente tinha. Ele tossiu de maneira áspera e cortante, o rosto contraído deixando mais que clara a dor que o gesto lhe proporcionava... Em sua garganta, atravéz de um pequeno orifício, um tubo estava preso, lhe permitindo respirar. Os olhos de cor indefinida, provavelmente dentro de algum tom de castanho, se fixaram no teto branco de seu quarto, tentando se lembrar da enchente de sintomas que o haviam destruído onze dias. Primeiro, o ataque cardíaco, enquanto corria pelo quarteirão, como fazia todas as manhãs. Depois foi seu fígado que morreu, apesar dele não beber, e a cicatriz na barriga deixava claro o transplante recém feito. E então, como em uma corrida, ele se lembrou de perder o movimento das pernas, a utilidade do rim, grande parte dos pulmões e quase todo o movimento dos dedos da mão direita. Fechou os olhos de maneira infeliz, quase miserável, enquanto aumentava a morfina para o maximo que a maquina permitia, numa tentativa falha de esquecer da dor para poder dormir. Um som estranho lhe fez abrir os olhos em busca de sua fonte, apenas para encontrar o escuro do quarto e do corredor a sua vista. Franziu o cenho e os fechou de novo, apenas para ouvir o som novamente, e acompanhar este se transformar em um blues melódico baixa, lenta, bonita apesar de melancólica.

 

“I’m going down to the cemetery

  ‘Cos the world is all wrong...

   Down there with the spooks,

   To hear’em sing my sorrow song.”

 

Levantou com dificuldade a cabeça em busca da origem do som, não encontrando local nenhum de onde ele poderia estar vindo, apesar da musica aparentar vir de dentro do quarto. “Oi?”, ele perguntou levemente receoso depois de tampar a saída de ar na garganta, apenas para não ouvir resposta nenhuma para o seu chamado do que a continuação da musica. O jovem moribundo passou alguns segundos em silêncio, até perguntar de novo. “Tem alguém ai?”, a voz ainda mais receosa dessa vez, foi acompanhada por uma série de tossidos pelo uso da fala. A musica prosseguiu por mais alguns segundos, como que indiferente as perguntas, até que uma nota pareceu se estender como se a corda da viola tivesse sido solta, até o som se perder no ambiente. Do canto escuro do quarto aonde deveria existia uma poltrona escondida nas sombras, um homem se levantou, vestindo um terno preto, simples, e um chapéu de feltro preto da mesma cor. Nas suas costas, pendia uma viola, presa por uma tira de couro a seu peito. Sua pele era tão negra que era difícil de definir os contornos de seu rosto no escuro, mas era fácil dizer que ele estava sorrindo, sorrindo de maneira gentil, levemente tristonha.

“Quem é você?” o moribundo perguntou com dificuldade, enquanto assistia a figura se aproximando. Dos lábios do homem da viola, veio apenas um som típico, parecido com “Shh”, deixando claro que queria que o doente fizesse silencio. Seria estranho explicar, se alguém lhe perguntasse, mas o jovem não sentiu o que seria normal sentir. Não sentiu medo, não sentiu apreensão... Pelo contrário: se sentiu calmo, tranqüilo. Se sentiu como se a presença daquele homem não pudesse fazer nada de ruim para ele, em momento algum.

Sendo seguido pelos olhos castanhos do jovem interno, o aparente Blueseiro se sentou no banco ao lado da cama, aonde normalmente se senta a visita, e olhou para o homem deitado, o sorriso reconfortante ainda presente nos lábios. Ele levou uma das mãos escuras, ásperas, até o rosto febril e suado do homem deitado a sua frente, e lhe passou a mão pela testa e pelo rosto, quase em um carinho, enquanto lhe tirava os cabelos escuros que estavam grudado em sua testa. O doente o olhava perplexo, sem entender absolutamente nada, mas sem se preocupar ou alarmar o suficiente para falar alguma coisa. O homem tirou a mão de seu rosto, a levando para a mão esquerda dele, a tomando com cuidado entre as suas duas. Os dedões se moviam devagar, em uma espécie lenta de carinho, enquanto a mesma musica começava a tocar baixinho, vinda de local algum dessa vez, aparentemente tocando apenas naquele quarto.

O doente, febril, sentia-se quente, mas não conseguia tirar os olhos dos olhos do outro homem, que lhe segurava a mão como se nunca tivesse existido alguém no mundo que ele amava mais. O sorriso de seu visitante mostrava-se levemente triste, melancólico, apesar de ainda ser estranhamente reconfortante. O rapaz derrepente deu-se conta de que a dor não existia mais, e que o sono lentamente lhe tomava conta da cabeça pela primeira em alguns dias, já que finalmente estava livre da dor. Ele levou a mão livre ao tubo em sua garganta com esforço, tampando a saída de ar com o dedo indicador, para poder falar. “Quem é você..?” ele perguntou, a voz já quase balbuciante devido ao sono. O estranho abriu um pouco mais o sorriso de carinho e tristeza, apertando um pouco a mão do rapaz entre as suas. Os olhos dele começavam a se fechar agora, dominados pelo sono atrasado... Ele queria manter os olhos abertos, queria continuar olhando e apreciando a estranha visita em seu quarto, que lhe preenchia com tão estranha calmaria, mas as pálpebras pesavam cada vez mais, enquanto começavam a lhe tampar a visão, pouco a pouco tudo a sua volta sendo lentamente substituído apenas pela imagem do visitante, e pela musica que corria pelo quarto, lentamente. Quando seus olhos estavam a ponto de estarem completamente fechados, completamente entregue ao sono, ele achou ter visto algo, ter sentido algo... Uma aparição rápida, um vento suave... Ele achou ter visto asas saírem das costas de seu visitante. Asas negras como a noite, repletas de penas que aparentavam a mais pura maciez... Mas seus olhos já estavam fechados, e o sono o dominava tão intensamente, que não conseguiu se fazer abri-los de novo.

 

““I’m going down to the cemetery

  ‘Cos the world is all wrong...

   Down there with the spooks,

   To hear’em sing my sorrow song.”

 

___________

 

Estou de volta, e declaro o Hiatus acabado.

Continuo no Tudo de Blog esse ano, iuhu! E não vou responder os comentários passados por que sou um calhorda preguiçoso, mas apartir desse post eles serão todos respondidos.

 



Postado por: Sarx às 13h33
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Selos.



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