Tirou os sapatos e as meias enquanto passava da ruazinha de pedra para a areia, para poder sentir o toque dos pequenos grão em toda a sola dos pés. Continuou seu caminho, sempre em frente, sem realmente se preocupar com tudo a sua volta, até atingir seu destino: o Mar. Sentiu a primeira das pequenas ondinhas se quebrar e molhar seus pés, a segunda já lhe ensopando a barra da calça jeans. Olhou em frente, para o horizonte infinito, o sol vermelho se pondo distante, quase morto.
Fechou os olhos pelo longo segundo em que inspirou pelo nariz, sentindo a pureza do ar passar queimando pelo seu nariz até seus pulmões. Abriu os olhos, agora repletos de alguma coisa desconhecida, com uma pitada de melancolia. Havia alguma coisa naquele ar... Alguma ausência, alguma coisa que não estava lá, mas que devia estar. Alguma coisa que precisava estar lá, algum cheiro que, como um piscar de olhos, você só de da conta de sua existência quando ele some.
Tentou de novo, puxando o ar pelo nariz e pela boca até chegar a doer de tão cheio que estavam seus pulmões. Faltava alguma coisa... Alguma coisa, algum cheiro qualquer de gás, alguma sensação mínima e prazerosa de intoxicação, de células entrando em estado vegetativo, algum vento qualquer que lhe trouxesse um cheiro aleatório de crime, de assaltos, e de tiros de bazuca contra a Camada de Ozônio.
Fechou os olhos mais uma vez, e inspirou de novo, tentando visualizar uma imagem qualquer pelos cheiros e pelas sensações que não estavam lá. Ele viu carros, fumaça, prédios altos – a fortaleza do capitalismo selvagem, viu um acidente de ônibus, viu o fogo, sentiu o cheiro de tinta queimando.. Viu uma multidão sem rosto vestindo ternos como se vestissem armaduras medievais, suas únicas proteções contra a selva de aço e concreto...
Abriu os olhos devagar, para ver, graças a um ultimo sopro de luz solar sobre o mar, alguns golfinhos saltando alegremente, próximos demais da praia. Ele não sorriu, como os poucos outros banhistas da praia estavam fazendo. Ele apenas suspirou, com desanimo, enquanto dava as costas ao espetáculo natural – que estaria lá amanhã, e depois, e depois, e depois.
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